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O farol do cemitério dos navegantes

Por Ernst Schaffer, engenheiro da Construtora Christiani-Nielsen, publicado na edição de Agosto de 1949 da revista CN Post (publicação interna da construtora).

Em janeiro de 1948 recebi da CN Rio a incumbência de viajar para o Rio Grande do Sul para construir no litoral em Albardão (localizado entre Rio Grande e o Uruguai) um farol com 45 metros de altura junto com 4 casas para o vigia e familiares. Esse farol deveria substituir um outro com 38 metros de altura construído em 1910 de tubos de aço soldados. Essa construção, devido à forte maresia no local, com pouco tempo de construção já se encontrava bastante danificada pela corrosão. Mais tarde a torre foi reforçada com 8 pilastras e a própria torre revestida com uma camada de concreto armado, mas isso também se danificou.

No dia 11 de janeiro viajei junto com o mestre carpinteiro Arne Nielsen do Rio de Janeiro para Rio Grande, uma cidade com 65.000 habitantes. Essa se tornou nossa base. No dia seguinte saímos para visitar o futuro canteiro onde seria erguido o farol, uma viagem de 145 km onde 125 km são percorridos pela praia .O tempo estava nesse dia particularmente ruim. Algumas vezes era necessário dirigir quase que na água onde a areia possuía maior consistência. Por muitas vezes, mais tarde, tivemos que guiar os caminhões para que não atolassem na areia correndo o risco dos caminhões serem cobertos por ondas. Isso aconteceu diversas vezes com os caminhões que nos traziam materiais.

O local do canteiro é um local muito isolado onde só se via areia e alguns arbustos. Um momento diferente era o aparecimento no inverno de animais como focas e pinguins. O litoral é muito perigoso para os navegantes e por isso chamado de "Cemitério dos Navegantes". E não é sem motivo: nos últimos 40 anos, 33 navios foram parar na praia que tem 213 km de extensão. Muito deles ainda se encontram aqui mesmo, durante a guerra muitos se transformaram em sucata. Em abril de 1948 veio parar na praia um navio americano.

No canteiro existiam 4 casas de madeira sendo que 2 delas eram habitadas pelos vigias, as outras 2 foram usadas pela equipe antes da construção do barraco. Quando finalmente nos instalamos, percebemos que com a chegada do inverno a praia ficaria intransponível, o que nos levou a iniciar imediatamente o transporte de materiais. A água era a única coisa que não seria necessário ser transportada. Um poço fornecia água tanto para o trabalho quanto para os trabalhadores. A existência de água no subsolo trouxe porém dificuldades na escavação quando se teve de manter a bomba ligada dia e noite.

Uma das maiores dificuldades foi a contratação de pessoal qualificado como carpinteiros, pedreiros entre outros, e a maioria não sabia nem ler ou escrever quanto menos ter alguma noção técnica. Nós continuávamos à procura de pessoal e mesmo oferecendo um salário acima do oferecido na cidade era quase impossível traze-los. O local era isolado e triste.

Para a escavação das fundações construiu-se um anel de madeira e escavou-se a areia para fora. Foi se colocando peso sobre esse anel para que ele descesse acompanhando a escavação. O mesmo sistema foi usado nas fundações das casas. A fundação da torre estava pronta em junho, quando então demos início à construção da torre. Primeiro concretou-se cilindros com 2,6m de cada vez, e depois da terceira concretagem iniciou-se a construção das escadas. 

Nesta época começou um forte vento frio o que fez com que muitos trabalhadores fossem embora. Devido ao mau tempo freqüentemente caminhões se atrasaram dias. Muitos ficaram presos na areia, e como não viesse ajuda ficavam à mercê do tempo.

Veja mais informações sobre Albardão em Faróis.

Agradecimentos especiais à Flávia (documentação), Construtura Christiani-Nielsen