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Um farol na Cidade de São Paulo

É no mínimo estranho imaginar uma cidade afastada do mar cerca de 80 km provida de um farol que não  seja o de um cruzamento, um semáforo.

Mas São Paulo é mesmo assim, surpreendente. Como as maiores metrópoles do mundo, tem de tudo. Até um farol. Só falta o mar. E tempo.

É necessário voltar um pouco nesse tempo para entender as origens dessa construção, mais conhecida pelos moradores do bairro como "Relógio do Jaguaré".

Na década de 20, a São Paulo Light and Power traz ao Brasil o engenheiro norte-americano Whitney Asa Billings para planejar um modelo energético para a cidade, que aos poucos se transformava no gigante industrial do país.

A retificação do canal do rio Pinheiros prevista no projeto de Billings tinha em vista três objetivos;

  • Formação de um reservatório que alimentaria as turbinas de uma usina à ser construída no sopé da Serra do Mar, em Cubatão para produção de energia hidrelétrica que atenderia São Paulo e toda baixada santista;

  • Acabar com as freqüentes enchentes que afetavam principalmente o bairro de Pinheiros, na beira do rio;

  • Criação de uma via de transporte fluvial. Dessa forma, cargas provenientes de Goiás e Mato Grosso chegariam através dos rios Tietê e Pinheiros até o topo da Serra do Mar, e dalí até o porto de Santos através de um sistema de elevadores.

Apenas os dois primeiros itens se concretizaram. Mas um amigo do Engenheiro Billings ainda apostava na realização da terceira e mais visionária das propostas apresentadas.

Esse homem foi Henrique Dumont Villares.

Aos sete anos, foi com a família para a Europa, só voltando ao Brasil após ter se formado engenheiro agrônomo pelo Instituto Agrícola de Gembloux, na Bélgica. Ao que tudo indica, seu caráter empreendedor foi fruto do convívio com o tio, Santos Dumont, o pai da aviação.

Em 1935, adquire da Companhia Suburbana Paulista uma área de 165 alqueires cortada pelo ribeirão Jaguaré, que vindo Osasco, desaguava no rio Pinheiros. Ali foi implantado um arrojado projeto urbanístico, o Centro Industrial Jaguaré. Inspirado em experiências análogas nos Estados Unidos e Inglaterra, o Centro Industrial do Jaguaré tinha como principal atrativo sua localização, na confluência dos rios Tietê e Pinheiros, próximo das principais estradas de rodagem e ferrovias. A chegada de matéria prima e o escoamento da produção estariam livres dos "congestionamentos" da parte central da cidade, problema já verificado naquela época.

É aí que encontramos nas plantas do loteamento datada de 1939, uma área destinada ao porto fluvial. Logo atrás, a parte mais alta do terreno abrigava o bairro residencial, e em seu topo Villares ergueu em 1942 uma torre de 23 metros, equipada com um relógio de quatro faces fabricado por Jacques Perret e Cia. Relojoeiros, do Rio de Janeiro. Um sino de bronze soava nas horas cheias. Foi cogitada a utilização do local para a instalação de uma caixa d’água, o que não foi necessário.

A construção, embora servisse como mirante além de informar a hora certa, parece ter sido instalada para sinalizar a localização do porto aos seus pés. Consta que foi inspirada em um farol que Villares teria visto na Holanda, talvez durante seu período de estudos no país vizinho, a Bélgica.

"Além disso, o Centro Industrial Jaguaré fica na confluência dos rios Pinheiros e Tietê. Em ambos esses rios procede-se agora a dragagem e retificação que virão permitir a navegação, de modo que essa propriedade está muito conveniente situada para tirar proveito deste meio de transporte, o mais econômico". Apesar de sua crença nessa idéia lançada pelo engenheiro Billings, o rio Pinheiros jamais foi navegável e o porto do Jaguaré não saiu do papel. Por esse motivo, o farol-mirante-relógio nunca teve um aparato luminoso instalado. Isso não impediu que se tornasse uma referência diurna para os aviões, uma vez que se encontra na rota de aproximação do aeroporto de Congonhas.

O Centro Industrial Jaguaré chegou a abrigar aproximadamente 120 indústrias, e para os operários foi construído um bairro residencial. As casas, embora compondo um todo harmônico, tinham estilos diferenciados, ao contrário das construções populares massificadas e esteticamente monótonas que ainda encontramos. A praça do mirante, onde está o farol - relógio, foi criada como espaço de lazer para aquela comunidade.

Em 1945, a Sociedade Immobliária Jaguaré doou esse espaço à Prefeitura de São Paulo e nomeou Domingos Ferreira como zelador do relógio. Após seu falecimento por volta de 1969, outros moradores voluntariamente cuidaram da construção, mas o abandono por parte da Prefeitura resultou num longo período de deterioração. O sino e peças do relógio foram roubados, o local se transformou em ponto de tráfico de drogas e esconderijo de marginais.

Em 1999, o monumento foi tombado pelo Departamento do Patrimônio Histórico, e à partir daí, os esforços movidos durante anos pela Sociedade Amigos do Jaguaré (SAJA) foram finalmente recompensados. Em 27 de Agosto de 2000, José Gilberto Martins, presidente da Associação, entrega ao bairro seu maior símbolo devidamente restaurado. Todavia, uma interpretação confusa do processo de tombamento permitiu que um prédio de onze andares fosse levantado bem ao lado da torre, obscurecendo sua visibilidade. Uma revisão de 2002 especificou definitivamente a altura máxima dos imóveis em seu entorno.

Mas, como num filme de aventura (ou de terror), outro incidente: um dia após sua re-inauguração, a viatura que trazia o novo mecanismo do relógio foi roubada, com o referido equipamento...

Henrique Dumont Villares faleceu em 1960. No bairro que fundou, uma praça e uma escola levam seu nome. A ponte que construiu sobre o rio foi alargada. Sua ousadia em sonhar com uma hidrovia operante ainda inspira ideais. No alto da colina, a imponente torre cor de areia disputa seu espaço com um prédio e uma antena de telefonia celular. Galgando sua escada em caracol, descortina-se a cidade grande que Villares ajudou a construir. Só o relógio parou. Quanto tempo ainda temos?

O farol fica na praça do Relógio do Jaguaré, s/n.
Agradecimentos especiais à Marcos (SAJA) e Maria Helena Villares Kowarick.