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Na ilha, um Natal de solidão

Matéria de Clóvis Rodolpho Vasconcellos publicada no jornal "A Tribuna" de Santos, em 25 de dezembro de 1983.

"O verdadeiro homem é o que vive só, pois aprendeu a conviver com a solidão", costumava dizer Henrik Johan Ibsen, dramaturgo norueguês que viveu no século 19. Mas ontem à noite, na Ilha da Moela, a 2,5 milhas marítimas de Guarujá, a citação de Ibsen não era levada em consideração, pois ali trabalhavam e comemoravam o Natal membros de uma categoria profissional cuja solidão é a tônica de cada dia e o inimigo comum: os faroleiros, mecânicos e pessoal encarregado de manter sempre acesas as luzes que guiam os navegantes.

Para os que estavam na noite de Natal a 24,3 graus de latitude de Sul, e 46,16 graus na longitude Oeste, ao Sul da Ilha de Santo Amaro, todos os seres vivos ali presentes eram de uma importância vital, tão necessários como os mantimentos que chegam a cada 15 dias na lancha pilotada pelo mestre Pedro Góes ou como a água de chuva armazenada que utilizam para beber.

Enquanto os copos tilintavam entre as milhares de luzes em Santos e Guarujá, cidades avistadas da ilha, Clóvis César Brandão, 33 anos, carioca, e sua esposa Tânia Rosa, grávida, também festejavam, mas sempre atentos às luzes do farol, pois sabem que delas ainda depende a segurança dos navegantes que passam ao longo da costa. Ambos mantêm o mesmo espírito do homem que séculos atrás orientava os marinheiros com um facho de luz no cimo da Ilha de Pharos, em Alexandria. "Da Ilha de Pharos que originou-se a palavra farol e também a nossa profissão: faroleiro", diz Clóvis Brandão, há dois anos vivendo na Ilha da Moela com sua mulher, uma filha e, agora, mais um por nascer.

No Farol da Moela trabalham seis pessoas supervisionadas pela Marinha do Brasil, mais especificamente pelo capitão-tenente Geraldo Gondim Juaçaba Filho, chefe de setor de sinalização náutica. Devem permanecer de plantão sempre um faroleiro, um mecânico (mais conhecido por "motorista", que cuida do gerador a diesel) e um radiotelegrafista, encarregado do radiofarol, que emite sinais permanentemente. Como há necessidade de locomoção dos profissionais, a Marinha mantém sempre dois de cada setor.

A sinalização náutica de Santos é responsável pela manutenção dos diversos faróis existentes entre as ilhas dos Alcatrazes e do Bom Abrigo. Apesar da navegação contar atualmente com uma série de equipamentos sofisticados, como o radar, e até o sistema de orientação através de satélites, o secular farol ainda é de suma importância para garantir a segurança das tripulações e embarcações que entram no Porto de Santos, no caso, ou navegam pela costa do Brasil.

"Quando o piloto vem da África, por exemplo, e avista o Farol da Moela, ele respira aliviado, pois ali teve a certeza de que seu equipamento, por mais sofisticado que seja, está funcionando corretamente", diz o capitão-tenente Geraldo Juaçaba, mostrando que o radar, por exemplo, é um equipamento eletrônico e, por isso, está sujeito a falhas em conseqüência das próprias condições de ambiente. O jogo do navio, a maresia e outros fatores podem afetar os delicados equipamentos.

A estrela dos navegantes - O óleo de baleia ainda escorre pelas paredes internas do Farol da Moela, construído em 1832 e que opera hoje com a segunda lente desde quando entrou em funcionamento há 151 anos. Composta do mais fino cristal, a lente, fabricada pela Indústria Barbier, Paris em 1891, concentra e emite a luz proveniente de uma lâmpada de 1.500 watts a uma distância de 26 milhas marítimas, o equivalente a 48 quilômetros.

Chegam a impressionar a limpeza e o pequeno desgaste do equipamento, apesar de tantos anos de uso. Uma placa na entrada do farol com os dizeres: "Entre descalço", demonstra o zelo do faroleiro com seu material de trabalho. Mesmo quando a temperatura se eleva demais no auge do verão, e o óleo de baleia, utilizado na construção da torre, escorre lentamente pelas paredes, o aspecto do farol assemelha-se ao de uma sala de cirurgia.

Os navegantes não podem prescindir da luz do farol e, por isso, existem dois sistemas de emergência: a querosene, e, se este surpreendentemente vier a falhar, entrará em ação o mais rudimentar de todos: um aladim, que se encarregará, com o auxílio de lente, de iluminar a costa. A visibilidade do alto do farol é excepcional. Pode-se avistar, nos dias claros, os acidentes geográficos do Litoral do Estado. Vêem-se com clareza costeiras em São Sebastião e também a Serra do Guaraú, já em Peruíbe.

Na Ilha da Moela há um habitante dificilmente encontrado quando chegam os mantimentos trazidos pela lancha da Capitania dos Portos. É o burro Ibrahim, considerado pelos que ali vivem como o mais inteligente morador do local. "O bicho é tão esperto que, quando escuta o motor da embarcação, foge como um cabrito pelas pedras, para não ter que carregar as provisões, função para a qual foi trazido, mas que nós mesmos acabamos realizando", diz Edvan de Oliveira, mecânico do gerador e há cinco anos na Moela.

Classe em extinção - Os faroleiros são todos civis que prestam serviço à Marinha após fazerem um juramento de que cumprirão dois anos de missão árdua, isto é, viver isoladamente em ilhas no litoral brasileiro. Todos são voluntários e muitos oriundos de famílias onde os pais e avós também foram faroleiros.

Existem gerações inteiras de faroleiros em que o pai criou os filhos em ilhas e estes, já acostumados ao tipo de vida e trabalho, dificilmente se adaptam nas cidades densamente habitadas. No entanto, essa tradição poderá acabar, pois a Marinha pretende criar um quadro fixo de faroleiros, todos militares e previamente capacitados para exercerem funções nessas condições específicas.

Um faroleiro recebe da Marinha Cr$ 80 mil mensais mais Cr$ 26 mil em provisões. No caso do Farol da Moela, que é considerado privilegiado pela proximidade da costa, o transporte é efetuado quatro vezes ao mês, quando são armazenados os mantimentos para o período. No entanto, nem sempre é possível à embarcação da Marinha realizar as quatro viagens mensais. No inverno, quando são freqüentes as ressacas com grandes e fortes ondas, o faroleiro chega a permanecer por 30 dias ilhado.

"É aí que entra em ação nossa horta comunitária, que, muitas vezes, nos salvou", diz Tânia, mostrando que colhe tomates e todo o tipo de legumes, além de banana e ovos das galinhas que cria num cercado. Mas quando o inverno é rigoroso e grandes ondas formam-se à entrada da Barra de Santos, Clóvis, sua esposa, o mecânico e o radiotelegrafista passam períodos difíceis, chegando, inclusive, a ser obrigados a racionar as provisões.

"Há semanas em que ficamos lá de cima de nossas casas observando somente o vulto dos navios que passam em meio ao nevoeiro. Só conseguimos ver isso quando o vento forte dos temporais não nos impede até de olharmos pela janela", diz Clóvis, acrescentando que já releu todos os seus livros.

A solidão ataca - Se os que vivem na Ilha da Moela admitem estar muito bem, longe da tensão da cidade, também concordam em que constantemente vêem-se diante do maior problema dos faroleiros: a solidão. "Quando ela ataca vem mesmo para estraçalhar", diz Clóvis Brandão, relembrando os dois meses que ficou sem sua mulher na ilha. "O que me salvou foi a companhia de um cão, com que eu conversava diariamente e creio que chegamos a manter um diálogo significativo: eu latia e ele falava o português", disse, procurando ironizar.

O outro faroleiro, companheiro e substituto de Clóvis, é Ivan Dema, cuja família vive bem longe, em Angra dos Reis. Ontem ele não estava na ilha. Deixou Clóvis de plantão e foi visitar a família. Ao sair, porém, seu olhar atestava o sofrimento e, nas palavras do parceiro, a constatação da dor: "Quantas vezes eu não cheguei aqui na ilha e deparei com o Ivan sentado nas pedras chorando copiosamente. O motivo? A solidão, a pura e simples constatação de que você está sem alguém para lhe fazer um afeto, um carinho ou dedicar-lhe uma atenção especial", disse Clóvis.

Ontem, porém, o clima era de festa na Ilha da Moela, também chamada de "Ilha da Fantasia", pelo mecânico Edvan: "Onde, em tempos como os de hoje, você pode dormir com a porta e janela abertas sem ser assaltado? É ou não uma fantasia?", pergunta. A Marinha presenteou seus ocupantes com perus e outras guloseimas.

Algumas famílias foram visitar seus parentes na ilha. Cerca de 30 pessoas comemoram a festa cristã avistando de um lado as luzes de Santos e Guarujá e, do outro, a imensidão do mar. E o faroleiro Clóvis Brandão, que durante dois anos no local só recebeu uma visita, acompanhava a luz do farol na escuridão enquanto esperava o que qualificou como o seu presente de Papai Noel: as eleições diretas para presidente da República. "E por que não?", disse.

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