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O farol de Paquetá

Por Ney Dantas, farologista, membro da Academia de Artes, Ciências e Letras da Ilha de Paquetá, oficial da Marinha do Brasil

A Ilha de Paquetá foi encontrada em dezembro de 1555 pelo Frade Franciscano André Thevet, capelão da expedição de Nicolau Durand de Villegaignon, que em dezembro do ano seguinte a registrou em cartório de Paris.

Luiz La Saigne nasceu em 1885, na cidade de La Ferté-Alais, na França. Ainda jovem, trabalhou por cerca de dez anos no banco Comptoir National d’Escompte de Paris, onde adquiriu a experiência que lhe seria de extrema valia em sua vida futura.

Depois de desfeito o sonho de Villegaignon de estabelecer uma colônia na baía de Guanabara, a Ilha de Paquetá com seus não mais que 2 quilômetros quadrados de área, foi dividida em duas sesmarias em 1565: uma setentrional foi entregue a Inácio de Bulhões dando origem ao que os ilhéus chamam de Campo, e a outra ao sul foi doada a Fernão Valdez, dando origem à Ponte.

Desejoso de ampliar seus conhecimentos e horizontes, Luiz La Saigne procurou, em 1911, a firma Établissement Mestre et Blagé de Paris, especializada no comércio automobilístico. Admitido, foi enviado para trabalhar na filial em Buenos Aires.

A modesta Ilha de Paquetá depois de ultrapassar a atividade agricultural atravessou uma fase de prosperidade no início do século XIX com uma incipiente indústria de porcelana e com a exploração do caulim. Em paralelo, sua condição insular incentivou uma bem sucedida construção naval de embarcações de pequeno a médio porte.

Enquanto que a Europa sofria com a Primeira Guerra Mundial, Luiz La Saigne é transferido da Argentina em setembro de 1916 para assumir a gerência da filial da Établissement Mestre et Blagé no Rio de Janeiro fundada quatro anos antes e estabelecida à rua da Assembléia 83. Oito anos depois, La Saigne obtém apoio financeiros de bancos locais e transforma a empresa em uma Sociedade Anônima genuinamente brasileira registrada com o nome de Sociedades Estabelecimentos Mestre & Blagé.

A despeito de sua maior proximidade à Ilha do Governador, foi com o Rio de Janeiro que Paquetá mais se ligou, desenvolvendo estreitos laços de sobrevivência e comunicação. Com o passar dos anos a aptidão industrial da Ilha cedeu lugar a uma vocação de bairro residencial da classe média carioca. Transformou-se em morada dos amantes do mar, dos admiradores da natureza e, como diziam alguns mais jocosos, no "último refúgio dos sonhadores, dos pescadores, dos contadores de histórias e outros mentirosos".

Uma das primeiras atitudes de La Saigne foi levar a sede da filial para um local mais amplo. Apesar da resistência de seus conselheiros mais íntimos, transferiu-a, em 1917, para a rua do Passeio, para um velho casarão de dois pavimentos, então em um sítio freqüentado à noite por boêmios, jogadores e freqüentadores dos cabarés da Lapa.

O cordão umbilical da Ilha de Paquetá, situada no fundo da baía de Guanabara, definitivamente, ligou-se à cidade do Rio de Janeiro dela distante exatas 9,1 milhas, tendo como único meio de transporte o marítimo. A princípio, os passageiros foram conduzidos em embarcações a remo ou à vela em travessias sujeitas às condições do tempo. No início do século XIX, foi inaugurada uma linha regular de embarcação a vapor inaugurado com a Bragança, primeira representante de várias gerações de barcas.

Em 1933, no mesmo ano em que era criada a União Beneficente dos Empregados da empresa a loja matriz da Mestre & Blagé é destruída por um incêndio ironicamente na Quarta-feira de Cinzas daquele ano, dia 1º de março, considerado o mais grave incêndio ocorrido na cidade naquelas últimas duas décadas. La Saigne transforma o revés em vitória ao inaugurar três anos depois um vistoso e característico edifício que serviria de sede para sua empresa e que se tornaria conspícuo naquele calçadão, com seus quinze andares, encimado por uma torre suporte de um relógio notável visível à distância.

Depois, do antigo cais Pharoux ou da atual Praça XV, passaram a partir cada vez mais barcas de passageiros em linhas regulares para a paradisíaca e pacata Ilha de Paquetá confirmada como bairro residencial e promissor pólo turístico. O trânsito cada vez mais intenso de embarcações cada vez mais possantes e velozes sempre se fez pelo canal mais profundo, pela face leste da Ilha, sempre por um mesmo caminho – aproximando-se pela Ponta dos Frades, subindo pelas Praias da Imbuca, da Ribeira e das Gaivotas, a uma distância em que se podiam perceber as pessoas e ouvir assobios – contornando a Ilha dos Lobos até a atracação na estação na Praia Grossa, ponto final de viagens com durações entre 50 e 80 minutos .

No início da Segunda Guerra Mundial, Luiz La Saigne é agraciado com título de Cidadão Brasileiro em reconhecimento aos serviços prestados ao país. A empresa que lidera há mais de quinze anos adota o nome comercial MESBLA S/A que a faria reconhecida em todo o país através de suas filiais espalhadas por diferentes estados.

A constante passagem das barcas Maravilha, Porto da Piedade, Adelaide, Vila Nova, Paquetaense, Terezópolis e Mageense passou a exigir proteção das encostas da Ilha contra a erosão causada pelas marolas e os patrões das barcas passaram a ser mais cuidadosos principalmente quando em navegação à baixa visibilidade sob chuvas, nevoeiros ou negrumes das madrugadas ou dos inícios das noites. Não existiam sinais de ajuda à navegação além dos marcos naturais utilizados pelos experientes patrões das barcas.

Em paralelo com seus negócios, La Saigne sempre ofereceu uma assistência social aos seus empregados. Não obstante a participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial, a MESBLA adquiriu a propriedade do Sr Dr Lafayette de Freitas na Praia da Ribeira, em Paquetá, `a vista dos passageiros das barcas, para inaugurar em 1943 uma Colônia de Férias para seus funcionários, incorporando-a à União Beneficente dos Empregados.

A partir de meados dos século XIX novas barcas passaram a transitar entre Rio e a Ilha: a Paquetá, Comendador Lage e Martim Afonso; a Primeira,  Segunda, Terceira  e Quinta, com duas proas, movidas a rodas laterais, com capacidade para 300 passageiros em bancos de encosto móvel; a Gragoatá e a Imbuhy foram outras que deixaram recordações em ilhéus ainda vivos; e as moderníssimas Neves, Itaipu e Lagoa construídas em estaleiro de New Orleans , nos Estados Unidos.

Sempre crescente e bem sucedida, justamente durante a realização do 36º Congresso Eucarístico Internacional no Aterro do Flamengo, a MESBLA, em 1955, reinaugurou no alto da torre de cem metros de seu edifício sede, o formidável e vistoso relógio que passou a contar com um sonoro carrilhão que informava a hora a cada quinze minutos passando a ser referência para encontros na cidade. Além do novo relógio, surgiram o restaurante panorâmico com ampla vista para a baía de Guanabara e um teatro com ar condicionado.

Até os anos 50 do século passado, Mestres das barcas como Barbosa, Fininho e Quincas perpetuaram seus nomes entre viajantes e moradores da Ilha com suas manobras seguras e precisas e às vezes ousadas com passagens entre a Ilha dos Lobos e o Iate Clube!

Após um dia de intenso trabalho, Luiz La Saigne, o fundador da MESBLA, faleceu em sua residência na noite do dia 18 de janeiro de 1961. Com sua morte foram eleitos Presidente e Vice-Presidente dois de seus mais antigos funcionários, respectivamente, Silvano Santos Cardoso e Henrique de Botton. No ano seguinte, em 12 de agosto de 1962, a MESBLA celebraria seu Jubileu de Ouro já como uma empresa genuinamente brasileira, com seus mais de 8.000 funcionários operando em 13 filiais, lojas de varejo e agências de venda estabelecidas em pontos estratégicos do território nacional.

Quando a partir de 1963, começaram a circular as barcas Vital Brazil, Santa Rosa, Martim Afonso, Itapetininga, Ipanema e Boa Viagem, mais velozes, de arrojado projeto construídas no Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro, com capacidade para 2.000 passageiros e mantidas em serviço até hoje, a MESBLA com um então alto espírito comunitário, encaminhou em 18 de novembro de 1965 documento ao Diretor-Geral de Hidrografia e Navegação oferecendo-se para "instalar um farol com sirene ... no embarcadouro em frente à nossa propriedade" argumentando que " temos observado que, em determinadas épocas do ano, o nevoeiro denso prejudica e põe em risco as embarcações com destino à Ilha de Paquetá."

Tão logo aceita a proposta pela "Marinha", deu-se início a construção de uma torre quadrangular de cimento armado com 9,45 metros de altura, similar à do edifício sede no Passeio Público, dispondo inclusive de um relógio de duas faces e de uma sirene. Quando pronta, a MESBLA convidou as autoridades locais e da Marinha para sua inauguração em cerimônia que ocorreu no dia 28 de agosto de 1966. Ao cair da tarde desse dia, o farol de caráter privado e considerado de interesse particular, cujos funcionamento e manutenção foram assumidos pela MESBLA, batizado com o nome de Ponta da Ribeira, passou a oferecer aos Mestres das barcas e aos demais navegantes que demandassem a ilha de Paquetá, um característico lampejo vermelho de 4,0 segundos a cada intervalo de 8,0 segundos.

Quando recentemente Ricardo Siqueira fotografou o farol para mais um de seus livros de arte, ele o identificou como o único farol do Brasil que assinala, simultaneamente, o lugar e a hora.

Com a morte de Silvano Santos Cardoso na madrugada de 29 de fevereiro de 1968, Henrique de Botton assumiu a Presidência da MESBLA e implementou uma ousada política empresarial reorientando-a para os negócios a varejo que a fez merecedora em 1979, durante seu apogeu, o título de "a melhor companhia no ranking" segundo a revista Exame. Na década seguinte, a MESBLA, sob a presidência de André de Botton, representante da terceira geração, voltou a receber, em 1986, da revista Exame, o título de Maior e Melhor Empresa de Varejo no Brasil. No fim desse ano, a MESBLA S/A adotou o modelo de empresa "holding" com sete controladas, prenúncio de um triste fim.

Em 1993, Altineu Pires Miguens, amante da navegação à vela e freqüentador do Iate Clube de Paquetá, então Capitão de Mar-e-Guerra e Comandante do Centro de Sinalização Náutica Almirante Moraes Rego, reconheceu a necessidade pública do "farol da MESBLA" e propôs que a Marinha o assumisse o que ocorreu em 26 de maio de 1993 passando ele ser chamado Ilha de Paquetá e classificado como farolete exibindo lampejos verdes possível de ser visto a uma distância de 8 milhas. Desde então, ele que recebia energia elétrica da Colônia de Férias da MESBLA passou a ser alimentado por baterias que em fevereiro de 2000 foram substituídas por outras recarregáveis pela energia colhida em um painel solar.

O Plano Real, em 1994, pôs fim a uma ilusória ciranda financeira e levou a empresa a pedir concordata. Três anos depois, o empresário Ricardo Mansur, proprietário do Banco Crefisul e da Mappin, comprou o controle acionário da MESBLA na esperança de salvá-la. Sua estratégia contudo, não deu resultado. Com a decretação da falência de algumas das empresas da MESBLA S/A em agosto de 1999, a Colônia de Férias de Paquetá que zelava pelo cais, pelo deck de pesca, pelo relógio e pela sirene se viu prejudicada e impossibilitada de continuar a fazê-lo. O deck não é mais o mesmo, a hora deixou de ser mostrada e a sirene se calou, mas como dizia Gustav Dalén, o pai da sinalização náutica automática, "The lights must never go out" .

Em um misto de comandante e de faroleiro, de minha varanda, à guisa de passadiço voltado para o caminho das barcas, observo freqüentemente, pela bochecha de bombordo os hoje verdes lampejos do farol de Paquetá. Pela de boreste, um pouco mais distante, por entre galhos de amendoeiras e de flamboiaiãs marco os vermelhos do farolete de Itapacis .
 

Ney Dantas é o autor de:
"Sinalização Náutica Visual", DHN, 1998 /
"História da Sinalização Náutica Brasileira e Breves Memórias", Femar, 2000 / "Luzes do Novo Mundo" (com Ricardo Siqueira), Luminatti Editora, 2002